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Wednesday, July 24, 2013

O Primo Basílio - descrição de um sexo oral.

O filme.  
O longa "O Primo Basílio" foi inspirado no livro homônimo de Eça de Queirós. No filme a história se passa em São Paulo, ao invés de Lisboa. O marido Jorge, engenheiro, viaja para a construção da nova capital federal, Brasília. O ano é de 1958. No livro, Jorge viaja para o Alentejo e a época da trama é no final do século XIX. Sem mais enrolações, descrevo aqui a que é considerada talvez a primeira descrição de um sexo oral na Literatura Portuguesa. Por que nossos professores nunca falaram disso? Aprende-se muito mais fora das escolas, meus amigos. Aqui vai o trecho. Saboreie. 

"Basílio achava-a irresistível; quem diria que uma burguesinha podia ter tanto chique, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas 'tão feias, com fechos de metal', beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia: 'não! não!' E quando saiu do seu delírio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate; murmurou repreensivamente:

- Oh, Basílio!

Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensação nova; tinha-a na mão!".

O Primo Basílio - Eça de Queirós. [1878]

Lançado em 1878, um século antes do meu nascimento. Os estudiosos da Literatura o classificam como Realismo-Naturalismo. Quando o li pela primeira vez, em 1997, como mostra a primeira assinatura que fiz no livro, achei a leitura um pouco maçante. Já agora, aquilo que mais me entediou naqueles anos, foi o que mais me impressionou. A riqueza dos detalhes e como elas se apresentam no enredo fazem com que eu coloque O Primo Basílio na minha lista de favoritos. O livro é uma crítica à burguesia Lisboeta, tendo como cenário a própria cidade de Lisboa. Pelo menos é assim que dizem aqueles que estudam. Muito mais que isso, uma grande estória de amor e traição. 

Personagens: Luísa, Jorge, Basílio, Juliana, Sebastião, Conselheiro Acácio, Julião, Leopoldina, Dona Felicidade, Senhor Paula, Joana, Tia Joana, Mariana, Doutor Caminha, Tia Vitória e Visconde Reinaldo.  

608 páginas. 


Harry Potter e As Relíquias da Morte [2007]

O filme tem 2 partes. Último livro da série. Já havia assistido à primeira parte do filme em São José do Rio Pardo, numas férias, mas a segunda parte foi totalmente uma surpresa pra mim. Depois de exatamente 1 ano, acabo a saga. Não digo mais pra evitar os spoilers. Publicado originalmente como Harry Potter and The Deathly Hallows e em Portugal como Harry Potter e Os Talismãs da Morte. Traduções de Lia Wyler. 590 páginas. 

Harry Potter and The Half-Blood Prince [2005]

O Enigma do Príncipe, no Brasil. Em Portugal, O Príncipe Misterioso. Sexto livro da série Harry Potter, escrito por J.K.Rowling. Acabei todos os livros da série há pouco mais de 1 mês. Nesse livro, muitas coisas reveladoras sobre a figura de Severo Snape, todas continuadas e concluídas no último livro: Harry Potter e As Relíquias da Morte. Traduções de Lia Wyler. 

Monday, November 05, 2012

a vez do bola-de-neve - john reed (2002)

a vez do bola-de-neve é uma paródia demolidora que traz para o mundo globalizado a revolução dos bichos, clássica fábula de george orwell sobre o stalinismo. no livro original, os porcos livram os animais da granja do solar do jugo humano mas, em vez da liberdade prometida, dão a eles um governo em que "todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros". nesta história de john reed, bola-de-neve, o porco trotskista expulso na ficção de orwell, volta à uma granja em decadência para instaurar nela o capitalismo avançado, fundado em luxo, individualismo e competitividade. na floresta vizinha, castores massacrados no vale-tudo do mercado resolvem se vingar realizando um sangrento ataque aos moinhos gêmeos, referência que mistura fantasia à realidade concreta vivida pelo mundo depois do 11 de setembro. 

(texto da contra capa do livro)

poderá gostar desse post: a revolução dos bichos - george orwell (1945)

Saturday, October 06, 2012

a ordem da fênix

o quinto. foi o mais demorado pra mim. mas acabei. deixarei o sexto e o sétimo pra quando eu voltar do mochilão. nesse o bicho começou a pegar de verdade. não vou comentar muito pra não ser um spoiler. só posso dizer que dumbledore é foda.

deixo aqui a contra capa dessa obra prima de j.k. rowling:

Dumbledore baixou os olhos, estudou Harry através de seus oclinhos de meia-lua, e falou:
- Está na hora de lhe dizer o que deveria ter-lhe dito há cinco anos, Harry. Sente-se, por favor. Vou lhe contar tudo.

Wednesday, August 29, 2012

harry potter e o cálice de fogo

meu favorito até o momento. os novos personagens, o torneio tribuxo, os comensais da morte, a volta de lord voldemort. sinto que agora o bicho vai pegar. comecei o quinto já. sinto que quando acabar a série, vou ficar um pouco órfão. aproveitando o post, já estou de férias. agora é só se preparar pra aventura do mochilão. vou começar em outubro. sem muitos planos. o plano é não ter muito plano. seguir no improviso mesmo. só vou ajeitar umas coisas antes - grana, principalmente - e partir.  

Sunday, August 05, 2012

o prisioneiro de azkaban

terceiro livro da série. pra mim, o melhor até o momento. e já estou com o quarto em mãos. acho que consigo ler todos até outubro. muitas coisas legais nesse livro. o mapa do maroto, sirius black, professor lupin, os dementadores. tô curtindo bastante. tô curioso pra saber onde dará essa história toda. o engraçado é saber que quase todo mundo que eu conheço já tinha lido harry potter. e eu mal tinha assistido aos filmes. 

Tuesday, July 31, 2012

seres petrificados, mandrágoras e afins

acabei de ler harry potter e a câmara secreta, segundo livro da série. estou num ritmo frenético. pretendo ler todos antes de sair para o mochilão, em outubro. de harry potter eu só conhecia alguns filmes (eu nem lembro quais assisti, pra falar a verdade), mas nenhum deles tinha me cativado. o harry potter dos livros é bem diferente do harry potter que vi na telona. aquele ator é horrível. fora que no filme muitas coisas são cortadas e adaptadas. já comecei o terceiro: harry potter e o prisioneiro de azkaban. entrementes, frio na barriga enorme com esse mochilão que vou fazer e uma fase complicada no trabalho. estou num barco diferente. mas o negócio é keep calm and pretend you're a fictional character. será o mantra do mês vindouro.

p.s.: há 19 anos, num sábado, formava hobgoblins com sérgio, enio, ivan e erick. depois erick saiu. aí ricardo entrou. aí foi a vez de ivan sair. aí viramos mindtrigger. aí, depois a banda terminou. e desde então os quatro nunca mais estiveram no mesmo local juntos. 

Saturday, July 21, 2012

finalmente, harry potter

há coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro, e derrubar um trasgo montanhês de quase quatro metros de altura é uma delas.

quando harry potter foi lançado no brasil eu já tinha 22 anos. nessa época larguei o trabalho na prefeitura de guarulhos e viajei para vancouver, no canadá. no ano seguinte comecei a dar aulas de inglês no cna  penha. hoje já são 11 anos de profissão. conta rápida, devo ter dado aula para um pouco mais de 2000 pessoas, boa parte delas, adolescentes. ou seja, eu sempre ouvi falar de harry potter. do you like reading books? yes, i do. what kind of books do you like? harry potter. não sei porque nunca tinha lido até então. para não fugir do clichê "tudo vem ao seu tempo" , o tempo chegou. obrigado juliana, pelo presente. 

Friday, June 22, 2012

a idade da razão

um pequeno prólogo antes de falar sobre o livro. numa reunião que fiz com amigos em casa, alexandra me presenteou com essa obra. achei curioso, evelin havia falado sobre esse livro dias antes e juliana estava estudando sartre. achei a coincidência interessante e deixei de começar a ler on the road, de jack kerouac, para ler o livro em questão. a coincidência continuou quando, logo no começo da leitura, vi que o personagem principal (mathieu) tinha 34 anos: minha idade. aliás. motivo pelo qual a alexandra me deu o livro, meu aniversário, há pouco mais de um mês. prólogo feito, vale um resumo do pensamento de sartre, feito por ele mesmo, ao completar setenta anos: 

"para mim, o que vicia as relações entre as pessoas é que cada um conserva, na relação com o outro, alguma coisa de oculto, de secreto. penso que a transparência deve sempre substituir o segredo. e penso muito no dia em que dois homens não terão mais segredos entre si porque não mais os terão para ninguém, porque a vida subjetiva, assim como a objetiva, estará totalmente aberta".

é um pensamento compartilhado por mim. identifico-me com o autor. porém, em a idade da razão (1945) a transparência não substituiu o segredo. os personagens se sufocam, se torturam. e de uma maneira que me deixou desconfortável. o livro me irritou um pouco. foi uma leitura irritante, do começo ao fim. se ainda não atingi a idade da razão, espero atingi-la com mais poesia. 

"levei uma vida desdentada", pensou. "uma vida desdentada. nunca mordi; esperava, preservava-me para mais tarde - e acabo de perceber que não tenho mais dentes"

esse tipo de prosa, essa infeliz constatação tardia, não me pertence. bom, por ora.

Sunday, May 13, 2012

the genius of the crowd

there is enough treachery, hatred, violence, absurdity in the average 
human being to supply any given army on any given day

and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace

those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach peace do not have love

beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it
beware those quick to praise
for they need praise in return
beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know
beware those who seek constant crowds
for they are nothing alone
beware the average man the average woman
beware their love, their love is average
seeks average

but there is genius in their hatred
there is enough genius in their hatred to kill you
to kill anybody
not wanting solitude
not understanding solitude
they will attempt to destroy anything
that differs from their own
not being able to create art
they will not understand art
they will consider their failure as creators
only as a failure of the world
not being able to love fully
they will believe your love incomplete
and then they will hate you
and their hatred will be perfect

like a shining diamond
like a knife
like a mountain
like a tiger
like a hemlock

their finest art

[c. bukowski]

Tuesday, April 03, 2012

a casa dos budas ditosos

a casa dos budas ditosos de joão ubaldo ribeiro (leia outros livros desse cara), foi publicado inicialmente na série "plenos pecados" em 1999. o pecado tema to livro é a luxúria. o livro é narrado por uma mulher de 68 anos falando de sua própria vida e de como jamais se furtou a viver, com todo prazer e sem respingos de culpa, as infinitas possibilidades do sexo. infinitas mesmo. bem indicado pela amiga alexandra e que li avidamente, não só pelo conteúdo, mas pela técnica de mestre do escritor. joão ubaldo ribeiro é um dos melhores escritores contemporâneos. além de contos, eu já li outros livros dele. lembro muito do diário do farol (2002) cujo eu-lírico é um sociopata, o livro mostra também como pessoas desse tipo ascendem facilmente na sociedade. um ótimo conto de ubaldo está na coletânea contos para se ler na cama, muito engraçado. o título é a vez quando luiz cuiúba comeu seis ou sete veranistas. conta as peripécias sexuais do tal cuiúba, baiano, com turistas americanas, paulistas e cariocas. mas esses são levíssimos se comparados ao primeiro que citei. a casa dos budas ditosos é de chocar os puritanos e moralistas de plantão.  

Monday, February 27, 2012

a revolução dos bichos - george orwell (1945)

o título original em inglês é animal farm, em portugal é chamado de o porco triunfante, o triunfo dos porcos ou a quinta dos animais. considerado um dos melhores livros em língua inglesa. esse é daqueles que você lê numa sentada. por conta disso, foi um dos poucos livros que li mais de uma vez. no blog literatura fantástica tem uma crítica muito legal. muito mais do que uma condenação ao socialismo, como gostam de dizer, é uma critica à natureza essencialmente egoísta de nossa própria espécie.

veja também: nineteen eighty-four - george orwell (1948)

Sunday, February 26, 2012

teresa filósofa

era comum, e creio que ainda exista, casos de pessoas que escreviam livros e compartilhavam somente com amigos ou publicados clandestinamente com pseudônimos. a autoria, secreta, desse clássico da literatura erótica hoje é atribuída ao senhor jean baptiste de boyer, o marquês d'argens, nascido em 1704 e morto em 1771. o livro é divertído, com personagens cínicos e cheio de erotismo, como é de se esperar. thumbs up!

Friday, February 24, 2012

nineteen eighty-four - george orwell (1948)

se há uma verdade ela é: não julgue um livro pela capa. tempos atrás alguém falou desse livro, me emprestou e na estante ficou por anos. toda vez que pegava - exatamente essa capa ao lado - eu não tinha interesse nenhum em ler. isso mesmo, puro preconceito que já não tenho mais com capas de livros. o livro em questão, 1984, simplesmente foi um marco pra mim. à época, me revelou muitas coisas, mudou minha visão em relação ao mundo e minha vida, sem exageros. não sei se o leria novamente, acho que não. já tentei, em inglês, mas não foi. a coisa é que o mundo que te cerca é cheio de referências a essa obra-prima da literatura. não deixe de ler e se revolte também. um pouco de revolta não faz mal a ninguém. 

1984 retrata o cotidiano de um regime político totalitário e repressivo no ano homônimo. wilson smith, um homem com uma vida aparentemente insignificante, que recebe a tarefa de perpetuar a propaganda do regime através da falsificação de documentos públicos e da literatura a fim de que o governo esteja sempre correto no que faz. smith fica cada vez mais desiludido com sua existência miserável e assim começa um rebelião contra o sistema. o romance fala sobre liberdade individual, sobre governos controlando e fiscalizando a vida dos cidadãos e apesar de ter sido escrito em 1948, é bem atual. muitos termos e conceitos do livro estão hoje em dia no vernáculo popular, como a palavra big brother.

Thursday, February 23, 2012

brave new world - aldous huxley (1932)

aproveitando o gancho do post anterior onde falei do brief candles, coloco aqui outro livro de huxley. li pela primeira vez em inglês, em tempos onde ainda engatinhava no estudo da língua, creio que era até uma versão adaptada. depois re-li em português. é um livro incrível. se literatura é a sua vibe, leia. eu mesmo estou pensando em ler novamente um original, em inglês, que parou em minhas mãos. segue a descrição tirada do wikipédia.

admirável mundo novo narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizadas por castas. a sociedade desse "futuro" criado por huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada "soma". as crianças tem educação sexual desde os mais tenros anos da vida. o conceito de família também não existe. 

algumas referências ao livro em outras artes:

- a música admirável chip novo, da pitty, cita, de forma subjetiva, várias idéias contidas na obra de huxley.
- a música admirável gado novo, de zé ramalho, é obviamente um trocadilho com o nome do livro.
- o iron maiden tem uma música e um álbum com o nome do livro e traz na capa do álbum uma londres do futuro baseado na descrição de huxley.
- a banda strokes tem uma música chamada soma, que faz alusão à droga descrita no livro.

mais alguma referência que você conhece?

Wednesday, February 22, 2012

brief candles - aldous huxley (1930)

brief candles (fogo fátuo, em português) é de 1930 e consiste em quatro short stories. bem difícil encontrar em português, mesmo em sebos. então, se você tem uma boa leitura em inglês nem pense duas vezes. além, é claro, de ser bem melhor sem essas interferências de tradução. depois da leitura de o amor nos tempos do cólera de garcía márques, entrei numa fissura de ler outros livros dele. enquanto procuro o próximo vou postar aqui alguns livros que foram inesquecíveis de outras épocas de quando nem tinha esse blog. pra quem não sabe, huxley é o autor de brave new world (admirável mundo novo) do qual falarei em outra postagem. huxley também escreveu the doors of perception, onde relata suas experiências depois de ter usado mescalina durante uma tarde. foi daí que a banda the doors tirou seu nome. a arte influenciando a arte. já o nome do livro em questão foi tirado de macbeth, de shakespeare, que merece destaque:

"Out, out, brief candle! Life's but a walking shadow, a poor player that struts and frets his hour upon the stage and then is heard no more: it's a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing."

Tuesday, February 21, 2012

o amor nos tempos do cólera (1985)

"... e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que morte, a que não tem limites".

um romance irresistível sobre o amor, a velhice e a morte. um dos melhores livros que já li. os personagens juvenal urbino, florentino ariza e fermina daza nunca serão esquecidos por mim. gabriel garcía márquez tem o domínio da palavra certa, um prodigioso talento narrativo e uma incrível capacidade da manter aceso o interesse e a emoção do leitor em meio a um emaranhado de histórias no qual corre o fio da narrativa fascinante de um amor que desabrocha quando nada mais se espera da vida.

Tuesday, February 14, 2012

o amor nos tempos do cólera [#2]

continuação de o amor nos tempos do cólera [#1]

antes uma observação: o desfecho ocorrerá somente na parte #3. isso se eu lembrar. porque quase esqueci de postar aqui a sequência abaixo. que preguiça. mas agora que começou, vai.

em tempo: se fosse compartilhar cada trecho que gosto desse livro, teria que digitá-lo todo aqui. é fascinante, mesmo.

bom, sem mais delongas, lá vai. sem imagens dessa vez.

Começou com a simplicidade da rotina. O doutor Juvenal Urbino tinha voltado ao quarto, nos tempos em que ainda tomava banho sem ajuda, e começou a se vestir sem acender a luz. Ela estava como sempre a essa hora em seu morno estado fetal, os olhos fechados, a respiração tênue, e aquele braço de dança sagrada sobre a cabeça. Mas estava meio desperta, como sempre, e ele estava sabendo. Depois de longos rumores de linhos engomados na escuridão, o doutor Urbino falou consigo mesmo:
- Faz uma semana que estou tomando banho sem sabonete - disse.
Então ela acabou de acordar, lembrou, e rolou de raiva contra o mundo, porque na verdade tinha esquecido de substituir o sabonete no banheiro. Tinha notado a falta três dias antes, quando já estava debaixo do chuveiro, e pensou em botar o sabonete depois, mas esqueceu o assunto até o dia seguinte. No terceiro dia tinha ocorrido o mesmo. Para dizer a verdade, não tinha se passado uma semana, como ele dizia para lhe agravar a culpa, e sim três dias imperdoáveis, e a fúria de ser apanhada em falta acabou de enraivecê-la. Como de costume, se defendeu atacando. 
- Pois tenho tomado banho todo o santo dia - gritou fora de si - e sempre tem havido sabonete.
Embora ele conhecesse de sobra seus métodos de guerra, desta vez não pôde suportá-los. Foi morar a um pretexto profissional qualquer nos quartos de internos do Hospital da Misericórdia, e só aparecia em casa para trocar de roupa ao entardecer antes das consultas a domicílio. Ela ia para a cozinha quando o ouvia chegar, fingindo qualquer afazer, e ali permanecia até escutar vindos da rua os passos dos cavalos do carro. Cada vez que procuraram resolver a discórdia nos três meses seguintes, só conseguiram atiçá-la. Ele não se dispunha a voltar enquanto ela não admitisse que não havia sabonete no banheiro, e ela não se dispunha a recebê-lo enquanto ele não reconhecesse ter mentido de propósito para atormentá-la. 

to be continued...